Oncoginecologia
Câncer do colo do útero
É um dos cânceres mais frequentes entre as brasileiras e, ao mesmo tempo, um dos mais preveníveis. Quase todos os casos estão ligados à infecção persistente pelo HPV.
O que é
O colo do útero é a parte inferior do útero, que se comunica com a vagina. O câncer surge quando células dessa região sofrem alterações ao longo de anos, geralmente provocadas por tipos de HPV de alto risco.
Antes do câncer, existem lesões precursoras. Elas não costumam dar sintomas, mas podem ser encontradas nos exames de rastreamento e tratadas com procedimentos simples, antes que se transformem em câncer.
Prevenção
- Vacina contra o HPV: no SUS, é aplicada em dose única em meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos específicos em outras idades, como pessoas imunossuprimidas.
- Rastreamento: o Brasil está substituindo o exame preventivo (Papanicolau) pelo teste de DNA-HPV, que pesquisa diretamente o vírus. Para mulheres de 25 a 64 anos com resultado negativo, o teste é repetido a cada 5 anos. Onde o novo teste ainda não chegou, segue valendo o Papanicolau.
- Hábitos: o tabagismo aumenta o risco, e o uso de preservativo reduz a transmissão do HPV, embora não a elimine.
Sinais de alerta
Nas fases iniciais, o câncer do colo do útero geralmente não dá sintomas. Por isso o rastreamento é tão importante. Com a evolução da doença, podem aparecer:
- sangramento depois da relação sexual ou fora do período menstrual;
- corrimento persistente, às vezes com sangue ou odor forte;
- dor pélvica ou dor durante a relação.
Esses sinais têm muitas causas
A maioria delas é benigna. Ainda assim, quando persistem, precisam ser avaliados por um médico.
Diagnóstico
Quando o rastreamento mostra alteração, a colposcopia (exame do colo do útero com lente de aumento) permite localizar a área suspeita e fazer a biópsia, que confirma o diagnóstico.
Confirmado o câncer, exames como a ressonância magnética da pelve e a tomografia ou o PET-CT ajudam a definir o estágio, ou seja, a extensão da doença. É o estágio que orienta o tratamento.
Tratamento
O tratamento depende do estágio, do tamanho do tumor e do desejo de ter filhos:
- Lesões precursoras e tumores muito iniciais: procedimentos como a conização, que retira um pequeno cone do colo do útero.
- Tumores iniciais: histerectomia radical, que retira o útero e os tecidos ao redor, com avaliação dos linfonodos da pelve.
- Tumores localmente avançados: o tratamento principal costuma ser a radioterapia associada à quimioterapia. A cirurgia pode ter papel em situações específicas, como em algumas recidivas.
Cada plano é discutido com a oncologia clínica e a radioterapia, e explicado com calma na consulta.
Preservação da fertilidade
Em tumores pequenos e selecionados, é possível tratar o câncer preservando o útero e a chance de engravidar. A traquelectomia radical, por exemplo, retira o colo do útero e os tecidos ao redor, mas mantém o corpo do útero.
O tema foi objeto de um consenso da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica publicado em 2022, do qual a Dra. Tariane participou como coautora.
Cirurgia aberta ou minimamente invasiva?
Este é um dos temas mais debatidos da oncoginecologia recente. Um grande estudo internacional publicado em 2018, o LACC, encontrou mais recidivas com a histerectomia radical minimamente invasiva do que com a cirurgia aberta.
Já um estudo brasileiro multicêntrico com 776 pacientes, do Grupo CIRCOL, publicado em 2022 e do qual a Dra. Tariane é coautora, observou sobrevida semelhante entre as duas vias.
Hoje, as principais diretrizes consideram a cirurgia aberta o padrão para a histerectomia radical. A escolha é feita caso a caso, com a paciente bem informada sobre as evidências.
Dúvidas frequentes
Tive HPV. Vou ter câncer?
Não necessariamente. A maioria das infecções pelo HPV é eliminada pelo próprio organismo em até dois anos. O risco está na infecção persistente por tipos de alto risco, e por isso o acompanhamento com os exames de rastreamento é tão importante.
Quem tomou a vacina contra o HPV precisa fazer o rastreamento?
Sim. A vacina protege contra os tipos de HPV mais associados ao câncer, mas não contra todos. O rastreamento continua indicado na faixa etária recomendada.
É possível engravidar depois do tratamento?
Em casos iniciais e selecionados, sim. Cirurgias como a conização e a traquelectomia radical retiram o tumor e preservam o útero. A possibilidade depende do tamanho do tumor, do tipo histológico e de outros fatores avaliados na consulta.
Qual exame faço para prevenir?
Para mulheres de 25 a 64 anos, o rastreamento está migrando do Papanicolau para o teste de DNA-HPV, repetido a cada 5 anos quando o resultado é negativo. Onde o teste de DNA-HPV ainda não está disponível, segue valendo o Papanicolau. Converse com seu ginecologista sobre o exame mais adequado para você.
Referências
- Ministério da Saúde / INCA. Diretrizes Brasileiras para o Rastreamento do Câncer do Colo do Útero: rastreamento organizado com testes de DNA-HPV (2025). Acessar
- Ministério da Saúde. PNI adota dose única para a vacinação de pessoas de 9 a 14 anos contra o HPV (2024). Acessar
- Ramirez PT et al. Minimally Invasive versus Abdominal Radical Hysterectomy for Cervical Cancer (estudo LACC). N Engl J Med. 2018;379(20):1895-1904. Acessar
- Baiocchi G, …, Foiato TF, et al. Open Versus Minimally Invasive Radical Hysterectomy in Cervical Cancer: The CIRCOL Group Study. Ann Surg Oncol. 2022;29(2):1151-1160. Acessar
- Baiocchi G, …, Foiato TF, et al. Brazilian Society of Surgical Oncology consensus on fertility-sparing surgery for cervical cancer. J Surg Oncol. 2022;126(1):37-47. Acessar
Conteúdo educativo, atualizado em setembro de 2026. Não substitui a consulta médica: cada caso precisa de avaliação individual.
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